27/06/2017

Perfeição demais é chata... literalmente no caso das lentes.

Na montagem, a doutora Nise da Silveira junto a imagens de lentes novas e antigas, um disco de vinil e um tocador de CD. Fonte das imagens: Google. 

” Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas”. 
Nise da Silveira ,psiquiatra, 1905-1999


A doutora Nise tinha razão. Assim como as pessoas, as coisas, quando perfeitas demais, se tornam chatas e sem vida própria. Mas para se usar o adjetivo em questão precisamos comparar o que é ou parece chato com um padrão. E esse teria que ser inverso. Então o que é bacana? Pessoas com vida própria e com personalidade vibrante no caso de gente. E nos demais casos? Objetos, coisas, expressões artísticas como a música e a fotografia, por exemplo? O que pode causar nessas coisas inanimadas algum tipo de diferença que as faça saltar aos nossos olhos e ouvidos? Para mim a resposta seria a mesma que para pessoas: personalidade e detalhes. Enfim uma espécie de vida própria, independente mesmo da vontade inicial do seu criador, o artista.

Para falarmos da chatice temos que ter um padrão do que não é chato...
E para isso precisamos conhecer para além das coisas que se apresentam a nós, em um dado momento, tentando nos seduzir com apelos atraentes e com o aval de experts no assunto. A tal da massificação das opiniões que se torna em algum momento uma regra a não ser quebrada. Quem tem estofo - isto é – conhece mais coisas porque simplesmente viveu mais tempo ou conhece mais de determinado assunto, tem mais chances de comparação. Não precisa ser um profundo entendedor, mas basta ter visto mais. Dessa forma se torna capaz de comparar.

Em plena era digital, com todo apelo e sedução das coisas e objetos digitais como sendo altamente precisos e superiores em qualidade, estamos vendo o retorno do velho analógico. Assim, a indústria de discos de vinil, depois de décadas quase em extinção, está mais ativa do que nunca e esse ano a prensagem de LP’s atingiu pela primeira vez, desde o declínio de tiragem para o CD, a mesma marca de discos digitais produzidos e vendidos. No Brasil o fenômeno ainda é tímido, mas em outros países as vendas de toca-discos, agulhas, pré-amplificadores e logicamente os bolachões anda muito bem obrigado! E os dois só perdem para o MP3 na forma de streaming.
 
Amplificador valvulado Integre64 da empresa grega Lab12: as válvulas provavelmente nunca desaparecerão do mercado de áudio hi-end. Fonte: http://www.lab12.gr/integre4
A razão é apenas uma: nada pode imitar a personalidade do som analógico. E se esse for ouvido através de um amplificador valvulado (sim... as válvulas inventadas há quase dois séculos, nunca deixaram de ser produzidas e apreciada) fica mais difícil ainda reproduzir o som quente e aveludado proporcionado pela dupla disco de vinil/amplificador valvulado. O certo é que hoje, apreciadores da boa música investem fortunas não somente comprando equipamentos de áudio analógico. Gastam dinheiro comprando novos LP’s e na conservação de grandes acervos de discos antigos.

Na fotografia, que é o teme desse post, vemos algo muito parecido. Ainda que timidamente. Um sinal: os filmes e as maquinas fotográficas que os utilizam não foram completamente extintos. Alguns modelos top de linha são comercializados e utilizados por profissionais exigentes em determinados trabalhos. Quando se tratam das lentes – as verdadeiras celebridades, depois da própria luz – a posição é mais confortável para produtores e consumidores. Vários modelos em várias fórmulas (sim, lente tem fórmula que nem remédio!) inventados há quase um século, ainda estão nos catálogos dos grandes fabricantes. E são usadas por quase todos os fotógrafos, profissionais ou amadores.
 
Zeiss Otus 85mm f1.4 (Alemanha, 2016): 11 elementos em 9 grupos e um preço premium de R$ 15 mil reais fora os impostos de importação e frete, que fariam um exemplar chegar oficialmente aqui por mais de R$ 30 mil reais. Um exemplar "vintage" do mesmo fabricante (Zeiss Planar 85 1.4) custa menos de um décimo desse valor. Será que a qualidade da Otus é também proporcional à diferença de preços? 

Ainda assim, há uma enorme pressão desses mesmos fabricantes de lentes manuais consagradas para a introdução e massificação das novas lentes chamadas digitais. E a principal tática é usar a ideia (com variações de fabricante para fabricante) do “optics with no-compromisse”. E o que vem a ser isso? Simples: lentes que eles dizem ser “absolutamente perfeitas”, oferecendo aberturas extremamente rápidas, correção total de aberrações cromáticas e distorções e foco “cirurgicamente” preciso se estendendo do centro até as bordas da lente.  Essa tendência se iniciou em 2012/2013 e vem crescendo. E como tudo o que é novidade no ramo da tecnologia, logo se tornou o objeto do desejo entre muitos fotógrafos profissionais e amadores. Mas para que mesmo queremos isso???

Como diria a doutora Nise da Silveira, se falasse de fotografia... “pra que tanta perfeição? Não queiram “curar” demais suas fotos. Foto perfeita é foto chata!”
Para que necessitamos – fora raríssimas e justificadas exceções – uma lente e uma foto que tenha foco absolutamente perfeito até nas bordas (onde nada de interessante acontece)? De que servirá a ausência total de fringe? Ou a correção de distorções geométricas que nem nossos olhos são capazes de fazer (e a mente de entender)? Uma foto (ou vídeo) absolutamente perfeita, do ponto de vista das leis da física ótica, vai ser mais verdadeira, ou subjetivamente falando, vai ser mais bonita ou interessante? Acho que não. Muito pelo contrário. A fotografia perfeita, para mim, mente. Não fala da realidade (ou do sonho) que meus olhos viram por trás da câmera segundos antes de apertar o botão.

Vejo com tristeza e preocupação alguns fenômenos dessa busca por “imagens perfeitas”:

- Pessoas vendendo lentes belas e raras por valores irrisórios (porque se seduziram pelas novas tecnologias sem as conhecerem bem);
- Pessoas deixando de comprar essas lentes por acharem que estão ultrapassadas ou por preguiça (sim... o autofoco é uma preguiça de raciocínio!);
- Pessoas que falam de uma perfeição (real, porém subjetiva) a atingir sem entender o espírito da arte da fotografia.

Essa tendência em busca da melhor(?) lente vem se intensificando pelo lançamento de câmeras com definições cada vez maiores. E esse é outro assunto, embora mais discutido, que leva a enganos. Maior definição para que? Existem câmeras hoje que oferecem resoluções acima dos 40MP! São tão sensíveis que é quase impossível ao fotografo obter um foco preciso sem uso de tripé ou de lentes com autofoco. Aí os fabricantes precisaram aperfeiçoar o sistema de foco na câmera e nas lentes. E foi necessário introduzir, para além das lentes, a estabilização de imagens em cinco eixos no corpo das câmeras. E lentes com cada vez mais elementos e grupos de lentes. Tudo isso tem custos. Diretos, no bolso do comprador e indiretos, na subjetividade da imagem. Fora a confiabilidade desses sistemas.

Uma lente totalmente manual e analógica vai trabalhar por décadas (ou séculos) sem dar defeitos e te deixar na mão no meio do nada durante um trabalho. As lentes eletrônicas são delicadas e em algum momento vão apresentar defeitos. Geralmente na hora mais imprópria e improvável. Além do custo maior de aquisição, há o custo a médio e longo prazo com manutenção preventiva e corretiva. Mais elementos e sistemas eletrônicos significam também esterilizar e padronizar as imagens captadas, deixando pouco espaço para a criatividade se o fotografo não souber o que está fazendo. E poucos, sabem. Em parte a culpa é a pressa, a falta de tempo para estudar ou mesmo o pouco contato com a técnica antiga mas nem por isso menos válida e com outros sistemas que não os automáticos.

Vejamos alguns casos:

Vi recentemente em um blog (do fotografo Yannick Khong), um gráfico que ele mesmo criou, mostrando o estado atual de qualidade das lentes em relação ao que ele denomina “Linha de realismo”.  É interessante notar que quase todas as lentes novas (produzidas a partir de 2013) que tem como apelo esse “compromisso absoluto” com a qualidade ótica, estão situadas na parte do gráfico fora da linha de realismo. Ou seja: a imagem, de tão perfeita, passa a não reproduzir mais as imperfeições da vida real que o olho humano, subjetivamente, percebe. E em consequência disso envia ao cérebro uma informação que faz com que o observador não acredite na imagem. Digo subjetivamente porque para a maioria dos leigos – que apreciam a imagem do ponto de vista da emoção – esses hiperdetalhes não são percebidos consientemente. Para o olho treinado do fotografo experiente a diferença será apenas que ele sabe o que está “errado” com a foto, causando nele essa falta de empatia ou emoção que seriam normais em determinada imagem. Mas os dois perceberão igualmente essa espécie de “mentira” fotográfica.
 
No gráfico reproduzido acima, a área verde situa as lentes que, segundo o autor, reproduzem imagens da vida real, ou como nossos olhos enxergam a realidade. Na área vermelha estariam as lentes fabricadas a partir de 2012/13 e que o mercado considera como lentes superiores, porém com uma falta de profundidade de campo específica que ele refere como característica 3D da lente.Fonte: http://yannickkhong.com/blog/2016/2/23/the-problem-with-modern-optics



Esse mesmo autor fala ainda em um conceito pouco difundido como característica  “humanizadora” do “olhar” de uma lente: a renderização 3D. Esta não deve ser confundida com o que se chama de fotografia 3D ou foto estereográfica, mas sim com uma característica da lente em reproduzir a perspectiva e profundidade de campo de uma cena da mesma maneira que nossa visão. Talvez porque esse defeito esteja ficando mais claro agora, com a introdução de lentes super “curadas” de anomalias óticas. É o mesmo caso subjetivo que, em um primeiro momento experimentamos ao ouvir os primeiros discos digitais (CD). A expectativa criada pelos fabricantes antes do lançamento e a massificação da publicidade vendendo a nova tecnologia como superior ao disco de vinil,  nos fizeram acreditar que o que ouvíamos era melhor e mais preciso tecnicamente. Mentira. E só alguns deram conta, anos mais tarde, que a qualidade (principalmente a subjetiva) era muito inferior.

Um exemplo disso está nas duas fotos abaixo. Reproduzo a foto do mesmo autor (Y. Khong) por que ela mostra com facilidade essas características distintas entre lentes antigas e as novas. Como eu falei antes, esse tipo de percepção é bastante subjetiva e muitas pessoas poderão olhar as duas imagens e não perceber diferença quanto a perspectiva. Eu já conheço esse defeito há muitos anos, desde que comecei a usar lentes eletrônicas, mas não havia visto uma foto onde isso fosse tão didaticamente mostrado. Fonte:
 
Nikkor AF 50mm 1.4D (7 elementos) vs Sigma ART 50mm 1.4 (13 elementos sendo 1 Aesférico) Fonte: http://yannickkhong.com/blog/2015/10/4/the-flattening-of-modern-lenses-or-the-death-of-3d-pop

Em uma paisagem fotografada com grande angular, a distância entre o banco, em primeiro plano e o edifício ao fundo, é capturada claramente com a lente com menos elementos e desaparece na lente mais moderna com mais elementos corretores. As nuances de tons, principalmente no segundo plano estão bem mais definidas na lente tradicional. A explicação, simplificando bastante, é que a luz, ao atravessar mais elementos óticos, vai perdendo certas características refrativas e reflexivas – e esse é o objetivo de mais vidros na lente – que, se por um lado resolvem problemas de aberrações cromáticas e distorções, por outro deixam a imagem plana e achatada, ganhando em nitidez e foco de centro a margem. 

Foto: comparação de elementos
Fonte: kenrockwell.com, sigmaphoto.com

Em um outro exemplo, vamos comparar duas fotos diferentes, porem com o mesmo tema e distancia focal. A primeira foto abaixo foi tirada com uma lente Zeiss Planar 85mm f1.4 antiga (montagem Contax) fabricada em 1978. A imagem seguinte, foi clicada com uma Zeiss Otus 85mm f 1.4 fabricada em 2016.
 
Lente Zeiss Planar 85mm f1.4 : 6 elementos em 5 grupos (Alemanha, 1978) Disponível no eBay por cerca de R$ 1900,00. Conseguem enxergar o efeito 3D na profunidade de campo e no rosto da modelo? Foto: Marcelo Ruiz (Nov.2013).

 
Zeiss Otus 85mm f1.4: A diferença de preço (cerca de R$ 30.000 em relação a uma Zeiss Planar usada (considerando impostos de importação e frete) se reflete na qualidade da imagem? Fonte: http://neilvn.com/tangents/review-zeiss-otus-85mm-f1-4-vs-canon-vs-nikon/
Nesse caso, deixo aos meus leitores a análise pessoal das fotos. Digo isso porque quero exemplificar outra característica quando comparamos lentes novas com antigas. A subjetividade.  Diferentemente de características óticas estudadas e cientificamente comprovadas pelas leis da física dos sistemas de lentes (que também podem causar impressões subjetivas e pessoais), a emoção ou história de uma imagem está mais ligada a elementos não matemáticos (ou científicos) e sim às impressões pessoais e particulares que são afetadas por coisas como gosto, estado emocional e história de vida de cada espectador. O principal ponto é demonstrar que o excesso de pasteurização (entendido aqui como tratamento saneador de defeitos) retira, assim como nos alimentos tratados com o processo homônimo, não apenas coisas indesejadas mas também algumas características salutares da coisa tratada.

Portanto é preciso entender bem o que se está querendo captar e transmitir em determinada imagem para, depois disso, selecionar a lente mais adequada. E, acima de tudo, é necessária muita experiência e vivencia com uma diversidade de lentes e câmeras, para saber qual escolher. Não se trata de optar pelo melhor e sim pelo mais adequado ao tema a ser retratado. Não existe a lente perfeita, a câmera melhor ou a imagem mais tecnicamente obtida. Imagem é arte e arte é emoção e subjetividade!

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Marcelo Ruiz