15/09/2017

Por que patinhos feios são importantes...


Ainda sobre o patinho feio... Um a reflexão sobre a precariedade e os problemas dos videomakers no Brasil.


Gostaria de agradecer a comunidade do Videomaker Brasil noFacebook a recepção e os comentários sobre minha Frankiecamera! Foi bem positivo ver as reações de cada um. Críticas positivas, negativas ou neutras, são sempre bem vindas. Mostram que algo que estamos fazendo ou propondo é diferente, inovador ou disruptivo o bastante para motivar de alguma forma, as pessoas a saírem do quadrado. Dias passados, um post meu, foi apagado pelos administradores por motivo de muita polêmica. Como eu disse, acho a polêmica positiva. Mas infelizmente li comentários de gente que tentava me ofender, com piadinhas sem graça ou comentários preconceituosos. Aproveito então a repercussão desse meu trabalho com a Frankiecamera para explicar (ou tentar) aos que não entenderam minha posição em relação ao assunto polêmico das compras de produtos importados por - digamos assim pra não causar outra avalanche de críticas – “meios tortos ou alternativos”, a razão da minha critica e resistência em usar tais métodos.

A razão é simples e é a mesma que tem me levado à pesquisa e experimentos com projeto e construção de parte de meus equipamentos. A busca de soluções nacionais, baratas e acessíveis para suprir o mercado brasileiro de equipamentos. É uma vergonha que um mercado comprador importante como o Brasil, venha a décadas dependendo de jeitinho, meios tortos, contrabando, sonegação e principalmente interesses escusos e atrasados de legisladores e governantes para suprir os brilhantes profissionais da fotografia e vídeo brasileiros com os equipamentos que precisam.

Nesses mais de 40 anos que lido com fotografia e vídeo, já vi de tudo. Vitentativas vi fabricantes tradicionais e de respeito de equipamentos óticos fecharem suas portas por conta de falta de apoio financeiro e políticas alfandegárias que dificultavam o acesso a componentes importados e necessários, pressão de grupos estrangeiros que queriam fabricar por aqui equipamentos de baixa qualidade. Já soube de casos de grandes fabricantes que desistiram de instalar fábricas no Brasil por conta dos impostos altos, burocracia e corrupção.

O cinema e a fotografia no Brasil são tão antigos quanto à data de invenção dessas artes. D. Pedro II trouxe os primeiros equipamentos e fotógrafos para trabalharem no Brasil na época em que a fotografia estava sendo inventada na Europa! A mesma coisa com o cinema. Temos realizadores nacionais pioneiros que faziam cinema no Brasil já no início da popularização do cinema como diversão no restante do mundo. Eram brasileiros apaixonados pela arte e pelo país, que tinham posses e podiam estar na Europa e América do norte vendo de perto o surgimento dessa indústria e almejavam isso para o Brasil.

Nos anos entre 1940 e 1970, com pico na década de 50, haviam no Brasil companhias cinematográficas como a Vera Cruz que tinham estúdios, equipamentos, técnicos, diretores e cast de artistas, que produziam filmes com qualidade técnica e dramatúrgica equiparáveis ao cinema estrangeiro. A popularidade de alguns artistas era tal, que as bilheterias de seus filmes superavam largamente a dos filmes estrangeiros. E foi nessa época que começou a surgir uma indústria nacional de equipamentos e serviços para fotografia e cinema. Tudo isso hoje virou literalmente poeira. A pressão comercial, movida a favorecimentos e estratégias agressivas e mesmo ilegais, dos grandes estúdios e distribuidores americanos minou de tal forma o mercado nacional de audiovisual, que hoje 90 por cento da renda de nossa bilheteria é gerada e gera lucros para a indústria americana.

Essa política danosa de imposição de interesses estrangeiros nos levou à situação atual. Somos totalmente dependentes de produtos e serviços importados na nossa área. Há poucas semanas saiu uma nova lei isentando de impostos parte dos produtos e equipamentos que usamos. Mas duvido muito que vá melhorar alguma coisa. Pode ser que o custo de certos itens abaixe ligeiramente, mas não ao ponto de viabilizar o acesso amplo e igualitário a esses produtos. A razão é simples: o cambio. Mesmo sem qualquer imposto, o valor em dólares mais o frete de qualquer equipamento estrangeiro, continuará alto para nosso poder aquisitivo.

Uma câmera de US$ 5 mil para um comprador americano, já é algo caro, mesmo pra eles e muitos lá reclamam. Mas conseguem comprar apertando o cinto. Esse mesmo equipamento no Brasil com o câmbio do jeito que está, mais o frete internacional que também é cobrado em dólares chega aqui por R$ 17 mil e, dentro da nossa realidade de remuneração pelos serviços que prestamos, mais o custo de vida, se torna algo impensável. É evidente que qualquer equipamento de fotografia e vídeo, por ter um processo altamente sofisticado de projeto, produção e custo de componentes, além da escala menor de produção acaba tendo custo final elevado, pois não estamos falando de equipamento de consumo de massa como TV’s e celulares e sim de itens específicos para um mercado muito menor de compradores.

E vale ressaltar as condições em que vivemos no Brasil. Um fotógrafo ou cinegrafista na Europa, principalmente, não tem que incluir nos custos de seu trabalho despesas como escola particular para os filhos, planos de saúde, previdência privada, transporte particular (por questão de segurança) ou seguros contra roubo. Ele também paga menos impostos e tem menor burocracia para abrir sua empresa e contratar auxiliares. Aqui no Brasil, o pouco valor que cobramos pelo nosso trabalho ainda tem que comportar todos esses gastos extras. A diferença no final se resume em duas coisas básicas: a primeira é a baixa qualidade do serviço prestado, pela falta de bons equipamentos e bons profissionais. A segunda é o desgaste físico e mental do trabalhador, que acaba influindo na qualidade e no desenvolvimento profissional e educacional dele.

No estágio atual, poucos de nós ganha dinheiro suficiente para viver com dignidade e sem preocupações desnecessárias, para investir em nossas carreiras estudando, se aperfeiçoando e principalmente falta dinheiro para investir em equipamentos de ponta ou renovar o que se estragou e ficou obsoleto. Dessa maneira apenas um grupo minúsculo e seleto de empresas/profissionais, que por várias razões (algumas não muito éticas ou legais), acaba detendo o monopólio de produção nas atividades com melhor remuneração. E vai canibalizando o mercado. Os demais milhares de bons profissionais, que podiam dividir parte do bolo dos grandes contratos, acaba sendo relegado ao segundo plano da subcontratação (com remuneração injusta) ou optam por trabalharem em atividades menos lucrativas para garantir apenas a subsistência.

E mesmo esse mercado menos lucrativo, passa a ser tão disputado, que acaba por eliminar dele bons profissionais, que vão migrando para outras atividades ou empregos fora do mercado audiovisual. E isso acaba por contribuir para a decadência de toda a cadeia de valor da arte da fotografia, do cinema, da produção para TV e mesmo da música e da radio difusão.

Para além da isenção de impostos, o nosso mercado necessita de ações mais eficientes para progredir. Talvez em um primeiro momento, haver a criação de uma moeda mais favorável (como  foi feito de maneira contrária como o dólar-turismo para conter a saída de divisas). Empresas que se dispusessem a revender aqui, dando garantia ampla e agilidade de reparos técnicos nos equipamentos comercializados, poderiam se beneficiar de importar esses equipamentos com um dólar subsidiado, digamos na cotação 1 para 1,5. Assim um equipamento que custasse lá fora mil dólares seria vendido aqui por 1500 reais.

E para receber o benefício de exportar ao Brasil sem impostos, os fabricantes estrangeiros também teriam que cumprir algumas regras,  como vender aos comerciantes no Brasil pelo mesmo preço de atacado que vendem em seus países de origem, arcar parte do frete ou todo ele, manterem estoques no Brasil de peças de reposição ou sistema de garantia com troca total do produto, como já fazem alguns fabricantes. Já que para alguns itens, é mais barato para uma fábrica trocar o produto por um novo do que arcar com a estrutura de garantia baseada em reparo do produto defeituoso.

Uma legislação desse tipo aumentaria muito as vendas desses fabricantes no Brasil. E a consequência lógica seria a instalação de suas fábricas por aqui. Muito provavelmente sem a necessidade dos incentivos fiscais absurdos que o governo concede na politica atual para “convencer” fabricantes a virem para cá. O caso da Apple pode ser um exemplo. Os operadores de telefonia no Brasil reclamavam com o governo de não poderem atender aos clientes que queriam iPhones, pelo alto custo do aparelho (lembrando que geralmente as operadoras dão descontos e subsídios para atrair assinantes). O governo tentou convencer a Apple a fabricar os aparelhos no Brasil, acenando inicialmente com isenção de impostos de importação durante o tempo necessário para a instalação da fábrica no Brasil (aconteceu também com automóveis).

A Apple, por sua vez, teve que convencer a Foxcon (que fabrica os aparelhos na China exclusivamente para a Apple) a instalar uma fábrica no Brasil. A Foxcom montou duas fábricas. Recentemente a Apple e a Foxcom anunciaram o fechamento dessas fábricas, voltando a importar os aparelhos e repassando o custo dos impostos que retornaram, para o consumidor final. A matemática financeira deles é simples de entender. A Apple, assim como outros fabricantes como a Canon, a Sony, a Nikon, só pra citar produtos de nossa atividade, tem meios de saber quantos aparelhos delas entram no Brasil, via importação legal ou contrabando. Não esqueçam que quando compramos uma câmera ou um iPhone no mercado externo, seja em Nova York ou na Cidade del Leste no Paraguai, compramos em lojas legalizadas, que fornecem aos fabricantes estatísticas do perfil dos compradores. No caso da Apple, e muito provavelmente de outros fabricantes de produtos eletrônicos de ponta, eles percebem que a  maior parte dos equipamentos que são comprados por brasileiros vem das fábricas no exterior e a menor parte das fabricas que estão instaladas no Brasil.

Então pra que arcar com o custo extra de mais uma fábrica em outro país estrangeiro? A Apple já sofre pressão do governo dos Estados Unidos por fabricar seus produtos na China. O ex-presidente Obama, reclamou pessoalmente e agora o Trump os ataca diretamente, apelando para o nacionalismo. Fabricas fora de seu país de origem só se justificam se puderem gerar lucro para os donos através da venda no mercado interno onde estão instaladas e através da exportação para outros mercados próximos. A produção de automóveis no Brasil só se viabiliza e ainda sim com preços finais muito mais altos para os brasileiros, porque exportam carros feitos aqui para a América Latina, México e alguns países da África.

Quando aceitamos pagar o alto preço de um produto da Apple, na loja oficial, ou de equipamentos de vídeo também nas poucas revendas oficiais no Brasil, bem como quando optamos por viajar e comprar fora ou comprar via contrabando ou mercado paralelo, estamos dando um sinal claro a esses fabricantes. Eles entendem da seguinte forma: não precisamos de políticas de preço para o mercado brasileiro ou mesmo instalar fábricas por lá. Eles sempre darão um jeito de comprar nossos produtos, pelo preço que quisermos, fabricados por nós fora do Brasil.

Parece piada mais não é: certa vez um executivo da Volkswagem na Alemanha, respondeu (sob anonimato) a um jornalista brasileiro, a pergunta “porque os automóveis no Brasil são tão caros?”. Sua resposta foi: porque simplesmente vocês aceitam pagar o que cobramos. E esse pensamento deve ser o mesmo para todo tipo de empresário que fabrica, por exemplo, os equipamentos de fotografia, vídeo e áudio que precisamos usar aqui no Brasil. Pagamos o que eles querem porque não existe por aqui um similar nacional. Antigamente até haviam alguns, mas essas fábricas nacionais desapareceram há muito tempo.

Para finalizar esse texto, acho que a nossa sobrevivência como profissionais e artista da fotografia e áudio visual e, mais que isso, a criação de um mercado mais justo, sólido e profissional, dependerá de nós mesmos. Da nossa união e da pressão que teremos que fazer junto aos legisladores para mudar leis e criar novas. Precisamos de uma política de importações que nossa atenda realmente. Precisamos que o governo incentive de maneira viável e permanente empresas com sócios brasileiros ou empresas estrangeiras a se instalarem no Brasil e começarem a transferir tecnologia para nossos técnicos, engenheiros e alunos em formação. Precisamos de uma nova política de fomento de produção que não seja baseada em leis de incentivo, que abrem mão de recolhimento de impostos, gastam a fundo perdido ou criam recursos criando taxas absurdas como as novas criadas pela Ancine, visando formar fundos para desenvolvimento do setor. Precisamos lutar pela regulamentação da profissão, nas áreas onde ela ainda não existe. E cobrar dos órgãos fiscalizadores que inibam a prática de contratação de empresas ou profissionais não regulamentados.

Certos coletivos como o mercado de agências de publicidade e os publicit’srios tem sua lei regulamentadora desde 1965 e por isso são fortes. No jornalismo também há uma lei com regulamentação específica. E nele, o único profissional que atua também na nossa área de fotografia e vídeo – o repórter fotográfico ou cinematográfico – tem direito ao registro profissional e os benefícios concedidos pela Lei de Imprensa.

Na televisão e no rádio, há também a regulamentação dos trabalhadores. E as empresas de comunicação sérias não contratam cinegrafistas, iluminadores, diretores de imagem, técnicos de som, e muitos profissionais de diversas funções que não tenham o devido registro profissional. Na área de cinema, vídeo institucional, vídeo de eventos sociais, as produtoras e os profissionais estão à mercê da própria sorte, fazem o que querem, e são explorados por empresas ou pessoas físicas contratantes, em um mercado prostituído, exatamente por não sermos unidos e não termos uma lei específica que nos garanta direito de tornar na modalidade prevista em lei como Profissão Privativa, que são as atividades profissionais que só podem ser exercidas por quem detenha um Registro no Ministério do Trabalho ou Órgão de Classe.

E muitos na nossa área não sabem nem o que é isso. Não se atentam que existem no Brasil diversas profissões que não podem ser exercidas por leigos ou aventureiros. Médicos tem que ter seu CRM, assim como dentistas seu CRO, engenheiros e arquitetos tem o CREA, músicos tem a OMB e assim por diante. Profissionais do rádio e televisão (denominados radialistas) tem um registro mais genérico, que é conhecido como número DRT. Que serve também a outras profissões que não possuem sindicatos ou ordens de classe específicas. E simplesmente vemos todos os dias casos de prisões e processos de pessoas pegas exercendo essas profissões privativas sem o devido registro.

Então, porque devemos aceitar que um sujeito bote uma câmera no pescoço, ou compre um computador meia boca e sai por aí se dizendo cinegrafista, fotografo, editor de vídeo e “expert “ em outras funções, sem ter a qualificação necessária? É daí que vem a promiscuidade que nos afeta. Que vem a precariedade dos pagamentos imorais. Que vemos profissionais experientes, com anos de profissão serem trocados por gente nova e sem a menor experiência. Mesmo no mercado de filmes publicitários, onde as agências de publicidade ganham milhões e não contentes com isso estão avançando na nossa área de produção de vídeo e no mercado cinematográfico, ainda não existe regulamentação.

Enquanto não lutarmos, principalmente pela regulamentação de nossa profissão, não teremos força para exigir do governo que se mude por exemplo as leis alfandegárias que encarecem equipamentos. Não teremos força para exigir que contratantes de nossos serviços paguem salários descentes baseados em uma tabela oficial de remuneração. E essa união é tão importante que para finalizar esse artigo, cito o caso famoso da greve da Associação Americana de Roteiristas de Cinema, que conseguiu parar  Hollywood, a meca do cinema comercial mundial, por várias semanas ao cruzarem os braços exigindo mudanças na remuneração de seus contratos. E conseguiram! 

Grande Abraço! 

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Marcelo Ruiz