04/10/2017

Por que continuaremos a pagar caro por equipamentos no Brasil...

Exemplo de equipamento auxiliar para produção audiovisual que não existem fabricados no Brasil. 

Querem saber? Acho que nunca poderemos deixar de depender da exploração, por empresas estrangeiras, para comprarmos os equipamentos que precisamos para desenvolver nossas atividades profissionais aqui no Brasil. Passarão os anos e continuaremos a ter que viajar para o Paraguay ou para o exterior para comprar produtos, que na maioria não terão garantia ou assistência técnica no país. E continuaremos pagando bem caro, por conta da diferença de valor de nossa moeda frente ao dólar. Fora os impostos ou frete se quisermos fazer tudo legalmente. 


E querem saber por quê? Não existe apoio no Brasil, para quem deseja criar produtos nacionais. As verbas de pesquisa estão desaparecendo nas universidades, máquinas e equipamentos necessários para projetos, testes e produção também são importadas e protótipos tem que ser mandados para fora do país para serem construídos. Todas as facilidades que existem em outros países para os empresários, inventores e pesquisadores, como empresas que fabricam pequenas quantidades de placas de circuito impresso já montadas com micro componentes simplesmente não existem aqui. Não se consegue comprar com facilidade processadores especiais, circuitos integrados e outros componentes. Tudo tem que ser importado e pagando impostos como se fossem bens de consumo. A minha experiência pessoal com o assunto é antiga e está descrita abaixo, para quem se interessar em conhecer as dificuldades reais que passa o criador/inventor no Brasil.

Por diversas vezes tentei, na minha área de produção audiovisual, onde absolutamente tudo tem que ser importado e é caríssimo, desenvolver similares nacionais de baixo custo. Como pesquiso muito sobre as tecnologias e equipamentos dessa área e há sempre a constatação que para a maioria dos micro e pequenos empresários é impossível comprar equipamentos de ponta ou mesmo outros mais acessíveis, sempre me interessei em desenvolver alguns desses produtos. Em 2007 precisando comprar dois teleprompters (equipamento usado pelos jornalistas lerem os textos das noticias sem precisarem olhar para um papel, pois o texto passa na frente da lente da câmera, em que essa capte essas imagens e nos dando a impressão que o apresentador olha sempre direto para nós). Nessa época eram todos importados e nos custariam pelo menos US$ 6 mil dólares. Não havia um produto nacional.

Eu e outro sócio, que tinha uma pequena metalúrgica desativada projetamos e desenvolvemos um modelo de baixo custo e com todas as funcionalidades. Foi quase um ano de pesquisa, tentativas e erros. Finalmente conseguimos iniciar a produção. Ao todo em 2 anos de muitas dificuldades com compra de matérias primas, vendemos 67 unidades. Aí começaram a aparecer as cópias dos nossos produtos. Em dois casos, verificamos que dois empresários compraram nossos modelos para copiar. E como se não bastasse esse tipo de concorrência desleal, o Brasil abriu o mercado para produtos similares vindos da China e da Índia. Os preços que eles praticavam eram impossíveis de serem acompanhados. Resultado: encerramos a produção.

Depois disso descobri outros equipamentos que estavam sendo criados no exterior e tentei novamente produzir similares nacionais. Novamente o mesmo tipo de problema: dificuldade de importar matérias primas. Inexistência de fornecedores nacionais mesmo para itens simples como parafusos de um tipo especial. Dificuldade de comprar maquinário e encontrar parceiros para desenvolver e ampliar o negócio. Na parte da venda da produção, já havíamos descoberto, quando fabricávamos os teleprompters,  que os revendedores oficiais, representantes das marcas estrangeiras, não queriam se comprometer em vender nosso produto nacionalizado para não melindrar os parceiros de peso estrangeiros. Ou então usando o argumento que nosso produto era desconhecido e nacional, queriam altas margens de comissão pelas vendas. Enfim, novamente desistimos de tentar produzir aqueles novos produtos. 

Alguns anos se passaram mas como não consigo deixar de gostar de pesquisar e inventar coisas, quase como uma terapia ou passatempo, sempre contando com pouquíssimos recursos, desenvolvi uma linha de produtos auxiliares para serem usados com câmeras fotográficas e filmadoras. Nada do que eu desenvolvi, é inédito, mas pensando em design thinking, procurei melhorar o que já existia e acrescentar coisas que os outros desenvolvedores não pensaram. São diversos equipamentos, que chegaram a passar da fase de protótipos a produtos finais que poderiam entrar em produção e estão até anunciados aqui no blog, para produção sob encomenda. 

Mas parei nesse ponto, pois daqui por diante precisaria de capital e outros colaboradores associados para cuidarem de processos diversos, pois eu sou bom em criar, projetar e executar, mas não sou bom em marketing, vendas e administração de custos e sei que pra ter sucesso não posso cuidar de tudo sozinho. Mando em anexo uma foto comparativa de um dos produtos que criei e um modelo existente e as diferenças em termos de preço e estratégia. Agora imagina os milhares ou milhões de dólares que são necessários para desenvolver produtos. Exige logicamente criatividade. Mas criatividade também é desenvolver novos produtos com poucos recursos financeiros e materiais e sem apoio.

Qual o potencial disso para um país que precisa exportar mais, precisa criar empregos e aumentar sua participação na exportação de produtos com valor tecnológico agregado ao invés de ficar vivendo apenas de exportação de matéria prima. Se eu fiz, muitos outros inventores e empreendedores podem fazer também. Só falta apoio e mais informação.


Grande abraço!  

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Marcelo Ruiz